terça-feira, junho 30, 2009

Era uma vez

uma jovem arqueóloga que trabalhava num castelo encantado.

Apesar de muito bonito, esse castelo possuía monstros terríveis que assustavam o mais temerário dos heróis.

A nossa arqueóloga, apesar de corajosa, vivia atormentada com a possibilidade de se encontrar um dia com um desses monstros horrendos. Na verdade fazia-se de forte pegando e brincando com um monstro de madeira que aterrorizava a sua colega turista, apenas para exorcizar o pavor que tinha desses bichos. Este exercício revelava-se sempre bastante gratificante e divertido para a nossa jovem arqueóloga e para todos quantos assistiam ao fabuloso espectáculo da nossa querida turista a correr, a saltar e a gritar à frente da jovem arqueóloga que a perseguia com o monstro articulado de madeira na mão.

- PARA, PÁRA, PÁRA COM ISSO JÁ OU VOU-ME CHATEAR!

Dizia a turista horrorizada.

Mas divertido, divertido era quando a nossa jovem arqueóloga e seus compinchas do crime escondiam o monstro debaixo de cadeira, dentro de uma gaveta ou até mesmo no interior da mala da turista. Os seus gritos, quando descobria o monstro articulado de brincar, ecoavam pelas muralhas do castelo encantado, havendo até testemunhas que a dizem ter ouvido na cidade.

Havia também depois a jovem da luva branca que temia pela sua vida sempre que se deparava com os pega-monstros que se passeavam vagarosamente pelas paredes brancas do castelo encantado. Mas, corajosa como era, nada temia e consta que vai agora trabalhar para um país tropical cheio de monstros jurássicos.

Às vezes apareciam monstros voadores que mais não eram que descendentes do temível arqueopterix. Estes aparecimentos repentinos levavam a jovem arqueóloga e a jovem desenhista a refugiarem-se o mais rápido possível no interior de um dos salões do castelo, até que um dos seus colegas patrimónicos ou espacio-temporais as viesse salvar, mandando os pequenos monstros nojentos para o quinto dos infernos.

Os monstros apareciam em todos os locais. Até nos salões onde habitavam as nossas heroínas. Um dia, ao deslocar um quadro de uma parede, a jovem arqueóloga começou a ver umas patas, e depois mais um par de patas, e mais patas, e ainda mais patas. Patas grandes, patas pequenas, patas adolescentes e patas bebés. Era um sem fim de patas que só foram dizimadas pela acção do sapato de um herói inesperado.

Por vezes, os habitantes do castelo encantado encontravam monstros nunca antes vistos e completamente desconhecidos do mundo da ciência. Sonhavam até que um dia, David Attenborough viesse até ao castelo encantado realizar um dos programas da série BBC, Vida Selvagem. Aí sim, todo o mundo saberia o sofrimento e o horror que ali se vivia com toda a espécie de monstros malvados e prontos a atacar quem lhes fizesse frente.

Mas as nossas heroínas e mais uns quantos trabalhadores sazonais tudo faziam pelo bem do seu querido e amado castelo.

Houve até uma altura em que enfrentavam diariamente um exército de centenas de milhar de moscas assassinas, para resgatar dos confins do seu castelo tesouros escondidos há milhares de anos pelos seus antepassados temendo a tomada de poder pelos monstros mutantes que já nessa altura habitavam o castelo encantado.

Mas, voltemos à história da jovem arqueóloga.

Um dia, de manhã, pela fresca, que é quando os monstros se encontram ainda recolhidos nas suas tocas, saiu do seu castelo a jovem e destemida arqueóloga.

A manhã tinha sido calma e o dia apresentava-se ligeiramente enevoado, mas com uma temperatura agradável.

Depois do café e da volta matinal pelos mails, a jovem arqueóloga recolheu toda a documentação que precisava e saiu feliz e contente do palácio do interior do castelo.

Como já era verão e o calor tinha apertado nos dias anteriores, a jovem arqueóloga calçava umas lindas sandálias abertas que protegiam os seus frágeis pés de princesa.

Ia a jovem arqueóloga a dar a curva de acesso ao arco que a levaria para o meio da selva onde já se encontravam a jovem das luvas brancas e o jovem patrimónico a lutar furiosamente contra os monstros vegetais, quando de repente…

O PIOR ACONTECEU!

A jovem arqueóloga sentiu algo a mexer nos pés.

Calma. Pode ser só uma pedra. Pode ser uma erva. Pode ser uma pena. É de certeza uma simples pena de um passarinho.
Pensou a jovem arqueóloga.
Sim, seria uma pena.
Talvez a pena caída de uma das tantas andorinhas que por ali esvoaçavam.
O toque tinha sido muito rápido e subtil.
O que mais poderia ser? Os monstros não andam assim em terreno aberto onde podem ser atacados pelas armas automáticas dos guerrilheiros do castelo encantado.

E depois…

Numa fracção de segundo…

A jovem arqueóloga olhou para o chão…

Algo se mexeu rapidamente…

AAAAAAAAHHHHHH!!!!!

E o seu coração parou…

É o fim, pensou!

O meu coração não vai aguentar tamanho horror.
Morrerei!
Mas morrerei lutando contra este monstro aterrador que os meus olhos veêm!


O seu corpo estava hirto. Nada se mexia.

O fim aproximava-se rapidamente!

Mas então, algo de extraordinário aconteceu.

A jovem arqueóloga conseguiu mexer os olhos e olhou para o chão.

E viu.

E viu que o monstro horrendo que a atemorizava lutava desesperadamente para se esconder.

O monstro era uma pequena cobra, cinzenta às bolinhas amarelas, que também ela estava aterrorizada e que só queria sair dali e ir para um sítio onde nenhum humano a pudesse ver, nem por-lhe um pé em cima, nem mandar-lhe uma pedra, nem fazer-lhe mal.

A jovem arqueóloga ficou ali, quieta, para não assustar a pequena cobra, observando como ela serpenteava em direcção a um lugar seguro para se esconder e nunca mais na sua vida ser vista por um humano.

E assim termina a história da jovem arqueóloga no seu castelo encantado.

Esta história é dedicada á jovem turista e a todos quanto lutam por um futuro de paz entre homens e animais.

(De preferência sem touradas nem patas partidas a pombos para lhe tirar anilhas)

Por causa dele

Vou comprar uma coisa que disse nunca compraria.

Um dvd dos Gormits.


Tudo para o ver feliz...

"Lavana no rio, Cabania"