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sábado, abril 24, 2010

quinta-feira, abril 24, 2008

Orgulho

Do meu Avô, M. L., que arriscou a segurança e o bem-estar da sua família, para acolher na sua casa homens e mulheres que lutavam na clandestinidade contra a ditadura. O meu avô, que até aos últimos meses de vida manteve o mais puro e genuíno sentido de humor que alguma vez conheci. O meu avô que me carregou às cavalitas na primeira manifestação a que me lembro de ter ido, num 1º de Maio, em Évora.

Da minha avó N., que da pouca comida fazia muita para que quem ficava lá em casa, escondido, não passasse fome. Que comprou, de propósito, um grande tacho para poder cozinhar, ás vezes para mais de dez pessoas e que disse aos vizinhos que o tacho era para fazer os doces de Carnaval. A minha avó que me ensinou a fazer flores de papel para enfeitar as ruas da vila aquando do 25 de Abril e do 1º de Maio.

Da minha mãe, A., que emprestava o seu quarto para que nele se pudessem fazer as reuniões clandestinas e que desde muito cedo tinha como principal missão vigiar a casa, não fosse aparecer a GNR, ou até mesmo algum vizinho. A minha mãe que, alguns anos depois de vivermos em liberdade, estremecia e nos mandava entrar em casa, sempre que a GNR passava por perto.

Do meu pai, M. A., que não teve infância porque começou a trabalhar, no duro, aos oito anos. O meu pai, a quem roubaram a juventude, numa guerra estúpida e desnecessária. Guerra essa que hoje, mais de 40 anos depois de ter voltado, ainda não gosta de falar.

Do meu tio, J. A. a quem, desde quase bebé ensinaram que, se alguém perguntasse se tinha visitas em casa, respondesse que eram os tios que estavam de visita. O meu tio que perguntava quando é que os “tios” voltavam, quando passava algum tempo sem haver reuniões ou pessoas escondidas em casa dos meus avós.

Do meu avô, A. que teve uma vida muito dura mas que conseguiu criar, e muito bem, com a ajuda das suas irmãs A. e M. J., três filhos.

Da minha avó, M. A., que morreu cedo demais, decerto por falta de assistência médica, deixando três filhos muito pequenos.

Do meu tio, J. A. S, preso e torturado pela Pide. O meu tio, que contrariando os “avisos” da GNR, decidiu participar na manifestação em frente à Câmara, e onde acabaria por ser assassinado.
Dos seus filhos, A. e F., que perderam o pai cedo demais e dos seus netos que nunca tiveram a oportunidade de conhecer o avô maravilhoso que decerto teria sido.

Da minha tia, J., que poucos dias depois da revolução se despediu da casa onde trabalhava para poder finalmente ter a liberdade de participar nas festas, nos comícios e nas manifestações, porque a patroa era anti-revolução e nunca a deixaria participar neste tipo de acções.

Orgulho de todos eles e de quantos lutaram para acabar com a ditadura retrógrada que governou o país durante 48 anos.

A eles devo tudo o que fui, sou e serei. E a eles devo também a oportunidade de poder escrever livremente neste blog.

Porque o 25 de Abril é deles e de todos nós.

Bom 25 de Abril!

terça-feira, abril 22, 2008

Porque é Abril e não podemos esquecer

"A minha mãe continuou a ceifar. Andava já com os pés em ferida e os colegas, com pena, juntaram-se para lhe comprar uns sapatos. Passámos tempos muito difíceis. Íamos para a bicha do pão e do toucinho e quando chegava a nossa vez já se tinham esgotado os mantimentos. Vínhamos embora de mãos vazias depois de tanto tempo de espera. Passámos muita fome. A minha mãe chegou a pedir pelos montes de pessoas conhecidas. Muitas vezes cozinhava tomates com sebo de vaca, sem qualquer tempero"

"Tinha sete anos quando comecei a ir à escola em S. Mateus. Fazia mais de uma hora de caminho. Mesmo no inverno levava pouca roupa. Ia muitas vezes descalça ou com uns tamancos de sola de pau, que me magoavam os pés. O único agasalho que tinha era um xaile preto, feito dos restos de outro xaile da minha mãe. No verão levava um chapéu de palha. Tinha então apenas dois vestidos que usava de Verão e de Inverno. Um era azul às riscas mais claras e outro era axadrezado de vermelho, amarelo e branco. Por baixo, usava uma camisinha e uma combinação de flanela. Nesse tempo nunca tive um casaquinho de malha, nem sabia o que isso era."

"No triste dia 23 de Junho de 1958, fui à manifestação em frente à camara com o meu pai. Pouco antes, a GNR avisara-o para se ir embora. Quando me contou, perguntei-lhe porque não ia e ele respondeu-me que se os principais responsáveis pela concentração se retirassem os outro podiam perder a coragem, por isso ficaria até ao fim, para o que desse e viesse. Foi a última vez que falei com ele.
(...)
Quando começaram os tiros, os moradores das casas vizinhas abriram as portas para recolher as pessoas. Na casa em que me refugiei disseram-me pouco depois, que o meu pai tinha sido atingido, e estava morto ou gravemente ferido. Já não o cheguei a ver"

"Havia crianças carenciadas como eu que tinham direito a leite e queijo da Caritas e a roupa pelo Natal. Mas a mim nunca me deram nada. A desculpa era o facto de ser filha única, mas a verdadeira razão era a actividade política do meu pai"

"Regressavam dos interrogatórios com os olhos inchados, com o corpo todo pisado, muito maltratadas e quase mortas. Então protestávamos, pedíamos a presença de um médico ou de um enfermeiro e procurávamos lavar-lhes as feridas e ajudá-las dentro do possível. Algumas, depois da tortura do sono, não conseguiam durante muito tempo voltar a dormir"

"Quando fiz a 4.ª classe, uma professora da escola onde fui fazer exame, chegou a ameaçar-me de que ia reprovar, porque como não era baptizada, não era nada"

" Conheci muito bem o Germano Vidigal, um destacado sindicalista. Era calmo, delicado, pouco falador. Quando a G.N.R o prendeu, foi torturado até à morte. Um vizinho do posto da guarda, o Marques "Coxo", apesar de não ser propriamente um oposicionista, estava revoltado. Passava as noites à janela a pedir que alguém acabasse com aquele sofrimento. Outras vizinhas, apesar de fechadas dentro de casa, ouviam-lhe os gritos. As pessoas que o viram depois de morto passaram a informação de que lhe haviam esmagado os testículos."


Excertos do livro "A Memória das Mulheres. Montemor-o-Novo em tempo de ditadura", coordenado pela professora Teresa Fonseca e em que participaram várias mulheres da minha família.

terça-feira, abril 24, 2007

25 de Abril

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Foi ao som desta música do saudoso Zeca Afonso que, no dia 25 de Abril de 1974, se iniciou o mais bonito momento da História deste País.
VIVA O 25 DE ABRIL!
VIVA A LIBERDADE!

segunda-feira, abril 24, 2006

À Memória de

Branco, Armando Ruas, Aurélio Dias, Alfredo Ruas, Américo Gomes, Manuel Vieira Tomé, Júlio Pinto, Ferreira de Abreu, Francisco Cruz, Manuel Pestana Garcez, Ernesto Faustino, José Lopes, Manuel Salgueiro Valente, Augusto Costa, Rafael Tobias Pinto da silva, Francisco Domingues Quintas, Francisco Manuel Pereira, Pedro Matos Filipe, Cândido Alves Barja, Augusto Almeida Martins, Abílio Augusto Belchior, António Mano Fernandes, Rui Ricardo da Silva, Arnaldo Simões Januário, Francisco Esteves, , Alfredo Caldeira, Fernando Alcobia, Jaime Fonseca de Sousa, Albino Coelho, Mário Castelhano, Jacinto Faria Vilaça, Casimiro Ferreira, Albino de Carvalho, António Guedes Oliveira e Silva, Ernesto josé Ribeiro, José Lopes Dinis, Henrique Domingues Fernandes, Carlos Ferreira Soares, Bento António Gonçalves, Damásio Martins Pereira, Fernando Óscar Gaspar, Rosa Morgado, António, Júlio, Constantono, Paulo José Dias, Joaquim Montes, José Manuel Alves dos Reis, Américo Lourenço Nunes, , Francisco do Nascimento Gomes, Francisco dos Reis Gomes, José Garcia Godinho, Francisco Ferreira Marques, Edmundo Gonçalves, Manuel Augusto da Costa, Germano Vidigal, Alfredo Dinis, José António Companheiro, Manuel Simões Junior, Joaquim Correia, José Patuleia, António Lopes de almeida, Artur de Oliveira, Joaquim Marreiros, António Guerra, Militão Bessa Ribeiro, José Moreira, Venceslau Ferreira, Alfredo Dias Lima, Gervásio da Costa, Catarina Eufémia, Joaquim Lemos Oliveira, Manuel da Silva Júnior, Jos´´e Centeio, José Adelino dos Santos, Raul alves, Cândido Martins Capilé, José Dias Coelho, António Graciano Adângio, Francisco Madeira, Estevão Giro, Agostinho Fineza, Francisco Brito, David Almeida Reis, Humberto Delgado, Arajayr Campos, Manuel Agostinho Góis, Luis António Firmino, Herculano Augusto, Daniel Teixeira, Eduardo Mondlane, José António Leitão Ribeiro Santos, Amílcar Cabral, Fernando Carvalho Gesteira, José James Barneto, Fernando Barreiro dos Reis, José Guilherme Rego Arruda.


Vítimas de 48 anos de Regime Fascista!